O papel da microflora intestinal na saúde. A Nestlé em busca de mais informação.

23 Out, 2014

Por Annick Mercenier

Tal como muitos outros cientistas, o meu trabalho envolve o estudo do ecossistema de diversas espécies. São vários os ecossistemas já amplamente conhecidos, porém ainda existem muitos por classificar.

Este ecossistema que aqui destacamos não é uma floresta tropical, muito menos o fundo do mar. Reside dentro de cada um de nós.

Trata-se se da microflora intestinal do homem, a vasta colónia de microrganismos que habitam o nosso trato gastrointestinal.

Annick Mercenier, Nestlé Research Center scientist

Benefícios mútuos

Em média, adultos saudáveis possuem mais de 2kg de bactérias intestinais de milhões de espécies diferentes.

Com tantas espécies diferentes, significa que atualmente possuímos mais genes de bactérias que genes humanos. No entanto, não lhes estamos apenas a oferecer um local seguro para viver. As bactérias desempenham um papel importante no nosso organismo, ajudando-nos a manter saudáveis.

“High-traffic”

Sabemos que a comunicação entre o nosso intestino e o cérebro é feita nos dois sentidos.

O trato gastrointestinal é por vezes referenciado como o maior órgão imunitário do corpo humano ou o “pequeno cérebro” que existe dentro de cada um de nós.

Contém até 80% das células produtoras de anticorpos e é uma parte vital do nosso sistema de defesas. Também pode acontecer aquilo a que chamamos um canal de “high-traffic”.

Alguns dos microrganismos que residem no nosso intestino nascem connosco. Outros podem apenas “estar de passagem” e podem beneficiar ou prejudicar o nosso organismo.

Resposta imunitária

Quando nascemos, o nosso trato gastrointestinal é estéril ou quase estéril e é nos primeiros minutos de vida que os microrganismos começam a ocupá-lo. Contudo, estudos recentes sugerem que este processo acontece ainda quando o bebé está no útero da mãe.

Evidências científicas apontam para o facto de que a precoce colonização bacteriana ajuda o organismo a defender-se de várias patologias.

Desde cedo, o sistema imunitário não deve apenas aprender a reconhecer quando um organismo patogénico afeta o intestino, mas também deve fornecer uma resposta rápida e efetiva a esse contacto.

A capacidade do intestino funcionar corretamente depende da interação que existe entre três componentes: os microrganismos, a barreira intestinal e o sistema imunitário.

Ao estudarmos a comunicação entre estes três componentes podemos perceber melhor de que forma certos microrganismos intestinais podem ajudar a manter-nos saudáveis e por que motivo ao interferirmos podemos causar certos problemas.

Este tema será discutido mais detalhadamente no Simpósio da Nestlé International Nutrition, este mês.

Exposição precoce

Compreender quais os mecanismos que definem que microrganismos se instalam no intestino e em que momentos o fazem, é uma peça crucial do “quebra-cabeças” que tentamos resolver.

Sabemos que esse aspeto depende de determinados fatores, sendo um deles o momento do parto, onde o recém-nascido é exposto pela primeira vez a uma grande quantidade de microrganismos. Por exemplo, após o nascimento, o bebé é colocado junto da progenitora, que pode ser o agente transmissor de microrganismos (através da pele).

Alguns estudos demonstram que os bebés que nascem por cesariana ou aqueles que, após o nascimento, são colocados diretamente numa incubadora, podem estar mais suscetíveis a adquirir precocemente certas infeções e alergias.

Outros estudos verificaram que os bebés que nascem num meio rural, ambientes de grande produção agrícola, desenvolvem menos alergias que aqueles que não nascem aí.

Hipóteses de higiene

Comparando com as décadas anteriores, atualmente existem mais cuidados de higiene. Apesar de trazer muitos benefícios para a saúde pública, não é necessariamente um fator positivo.

Vários cientistas acreditam que alguns aspetos da vida moderna, estabelecidos para nos tornarem mais higiénicos e saudáveis, podem de facto interferir nos microrganismos intestinais.

Os antibióticos, por exemplo, têm sido essenciais para combater as infeções, mas atualmente sabemos que o seu uso frequente pode alterar o equilíbrio da microflora intestinal. Mas não são apenas os medicamentos! O que comemos, os químicos que colocamos no nosso corpo e aqueles que utilizamos nas nossas casas (por exemplo nas lidas domésticas) também podem ter impacto.

Causa e efeito

Se analisarmos os microrganismos dos indivíduos que têm uma determinada doença, provavelmente diremos que existem mais microrganismos de um tipo “A” que de um tipo “B” quando comparado com um indivíduo saudável.

Inúmeras condições têm de sido associadas às alterações da microflora intestinal, como por exemplo a doença de Crohn, alergias, cancro do cólon, diabetes tipo 1 e 2 e certas doenças inflamatórias crónicas.

Por outras palavras, é difícil dizer de que forma a presença de bactérias de um determinado tipo é a causa ou a consequência de uma determinada condição ou sinal que pode ser predisposto para desenvolver a doença.

Avanços tecnológicos

Apesar da microflora intestinal de cada indivíduo ter uma composição única, existe um conjunto de microrganismos específicos a todos os seres humanos.

É graças à elevada velocidade replicação do DNA que atualmente temos uma grande quantidade de informações ao nível molecular sobre os quais as bactérias fazem os nossos microrganismos intestinais específicos.

Atualmente o desafio dos cientistas tem sido integrar todas estas informações, geradas em todo o mundo, permitindo assim compreender totalmente o que constitui uma microflora intestinal saudável e equilibrada.

Pesquisas científicas levaram-nos ao ponto de podermos dizer que conhecemos que microrganismos constituem a microflora intestinal e quais as funções que estão a desempenhar.

O que ainda não temos é uma imagem completa de todas as bactérias que existem, uma vez que muitas delas ainda estão por identificar.

A Nestlé Research Center e a Nestlé Institute of Health Sciences estão envolvidas numa série de pesquisas no sentido de responder às questões em causa.

O maior desafio será verificar se, ao modificar esses microrganismos ou a sua função, por exemplo através da alimentação ou de intervenções nutricionais, podemos interferir no desenvolvimento de certas patologias.

Esta é uma investigação que apenas agora começou. __________________________________________________________________________________________________________

Annick Mercenier é uma cientista do Nestlé Research Center.